Estefânio levou sua mão esquerda. Ela cruzou o ar quente do quarto sem diálogos. Foi até a fechadura que brilhava por trás de algumas impressões digitais. Qualquer coisa poderia haver do outro lado. Ele engoliu seco e girou o trinco. Não havia mais nenhum barulho do lado de fora.
Há um tipo de literatura criado, ao lado de outros gêneros (como o epistolar e o retrato), na segunda metade do século XVII, nos salões mundanos franceses, estava voltado para o conhecimento do comportamento humano. Realizava-se nestes salões, por intermédio da criação destes textos, uma espécie de psicologia dos sentimentos humanos. Não se trata ainda de uma psicologia científica como aquela que nascerá no século seguinte com Christian Wolff (1679-1754), mas de uma instigação ao conhecimento do homem por mecanismos estritamente racionais, sem recurso à experimentação empírica e à comprovação estatística. Tratava-se de um exercício intelectual sagaz e de uma desconfiança perspicaz quanto aos verdadeiros motivos, intenções, sentimentos do homem, escondidos por ele em função de sua vida em sociedade, dos costumes, da moral, do próprio desejo de estima social. Trata-se de textos de poucas linhas.
Além da preocupação psicológica, havia a preocupação moral, com os costumes. Uma página, no máximo. Nunca, um sistema completo de idéias, de uma exposição exaustiva de um conceito.
São apenas riscos da razão. Nestes relâmpagos, a intenção dos autores era fazer seus leitores pensarem, e não mais um pensamento pronto. São textos de pensamento propositalmente inacabado, lacunar, evasivo e sedutor. No século XIX, Nietzsche fez-se herdeiro desta tradição francesa. Muitos de seus escritos são conhecidos como aforismos. A meu ver, máximas morais e aforismos constituem-se em um tipo de escritura muito propícia ao desabrochar da capacidade reflexiva. Neste limiar encontrava-se a mente de Estefânio diante da porta e seu enigma.
Sunday, January 14, 2007
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
.jpg)

0 comments:
Post a Comment