E bem que os animais têm seus próprios instintos. Eles sabem, na lógica primitiva e peluda deles, o que é melhor para eles. Se não se bicam saem logo na briga para acertar as contas. Já o Homem não. Morre de estresse, mas mantém sua límpida educação hereditária, mesmo quando pensamos nos teenagers incapacitados e sempre alucinados numa prateleira de hipermercado ou numa vitrine de shopping center, buscando a melhor atitude de um vestuário mtv. E crescendo nesta mentalidade eles serão seguramente os futuros pedestres que passam por você sem olhar na cara e dizer um bom dia, olá, como vai seu dinheiro e sua vida espiritual?
Mas, mesmo em tal limitação, com o tênis já velho e apertado, Estefânio sabia disso e pensava a respeito, com a nitidez de uma lente de dez graus.
Olhe, não se preocupe Anna. Deve ser um destes hóspedes do ap ao lado querendo saber o que estamos fazendo. Mais um frustrado voyer.
Sabe que eu estudei em catorze escolas diferentes, mas minha madrasta foi quem teve um papel decisivo na sua vida. Deu-me livros para ler, fez com que eu me interessasse pelo ofício de escrever e conseguiu que ele entrasse para a universidade. A minha adolescência foi deitada vendo o tempo passar numa página cheia de letras e frases, a conversar, a ouvir os d.r.i e a arranjar namorados. Boca fina foi o meu primeiro namorado a sério e seco. Tinha este apelido, pois era feio, tinha um mal karma, era apegado, não tinha barba bebia igual uma mula velha, um bafo de onça. E ainda por cima era ateu. Sua boca era como um risco vermelho e reto. Ele me disse um dia que eu fui a mulher por quem ele se apaixonou perdidamente. Não podia estar sem mim. Ele era divertido, intenso, romântico. Estava a espera que eu o deixasse a todo o momento. Por isso, passei todo o tempo que estive com ele, completamente na minha. Acho que é assim que funcionam os relacionamentos humanos verdadeiros. E mesmo nesta condição acho que não sou tão educada a ponto de cumprimentar um desconhecido vagando pelas ruas.
Estefânio notou entre os pequenos brincos e os olhos pintados de cinza escuro, parecendo madrugada mal dormida com as pálpebras abertas, que no fundo Anna Lívia estava numa leve crise de identidade. Suas palavras agora batiam nas paredes de seus ouvidos como que vermes verbais solitários e a procura de um espectador ou de um muro de arrimo. E é assim mesmo. Sem psicologia ou sentimentalismo ortodoxo, mas a pura realidade dos jovens frustrados. Ansiando pela carne suada e envelhecida. Molhada pela intensa ansiedade.
Ele lembrou-se de um diálogo com sua avó.
Quando fico sentada sinto mais forte a dor nas costas, talvez eu vá ao médico hoje.
Pode ser gazes, um mal jeito no banho, um mal estar ou... uma tristeza por eu estar indo embora!
Você não quer colocar os temperos no molho do maçarão? Desconversou rapidamente, ela.
Friday, November 10, 2006
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