Friday, May 26, 2006

Capítulo 21 – A Vitrine

O céu da manhã já brilhava forte pela vidraça da janela empoeirada com cortina esfumaçada. O mormaço do dia deixava o quarto quente e aromaticamente abafado. Minúsculas partículas de poeira e ácaros viajavam pelo espaço limitado do quarto passando pelas pernas lisas de Anna indo até o teto. Os lençóis brancos da cama ganhavam na competição. Uma disputa calorosa mostrava que o maior exército de microorganismos secos era de lá. Aquele terrível e depressivo clima de manhã sem perspectiva definia perfeitamente a cara das expectativas anônimas. Como um vazio esperando por ser preenchido por qualquer planta murcha ou flor artificial. O som da cidade hoteleira manifestava lentamente seu ruído urbano matutino por entre os travesseiros sem uso. Fora o som de eletricidade que cortava o silêncio do quarto a voz quase rouca e gutural sai do fundo da garganta de Anna Lívia.
Antes eu era totalmente cética quanto a este mundo. Completamente a parte. Mas, ainda assim eu possuía toda uma convicção que me garantia esta minha postura anti-social e isto me fortalecia como uma maneira de ir contra este objeto de minha descrença. Hoje, porém, vejo mais forte minha falta de fé neste mundo, mas perdi minhas convicções. Vejo que minha descrença é agora sinal de minha fraqueza. Sou descrente deste mundo devido a minha fraqueza em tentar mudar algo ou até mesmo de lavar um copo ou um prato qualquer.
Vi neste momento toda minha roupa jogada no chão ao lado do pé direito da cama. Um amontoado que mais se parecia com cadáver esquartejado e enrolado numa trouxa suja. É fácil manter a sujeira como papel de anotações e bilhetes de passagens, tampas de canetas e clips; trocos e mais pedaços amassados de anotações pelos bolsos da calça. E mais um pouco as meias encardidas e a falta de algum aroma agradável exalando do corpo. Difícil é domesticar a mente na limpeza e tentar manter o quarto, a cama, o corpo e a mente limpa, brilhando como o sol envidraçado varrendo todo o quarto e os dois corpos entre os ácaros.
Ele então pensou em silêncio enquanto fachinava sua mente que era apenas uma questão de limpeza o problema de Anna. Era simplesmente ela limpar de sua mente toda esta sujeira que estava deixando ela engordurada por pensamentos fritos em óleo de soja - sabe quando coloca pastéis indianos (também chamados de samossa, e sem carne ou ovos, é claro) no óleo quente e espirra tudo pelos ares sujando a parede o fogão e o chão além do cheiro horrível que penetra nas narinas e na roupa. Imagine na mente o tanto de gordura que se acumula ao longo de horas, dias, semanas, anos e vidas. Tem que limpar.

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