Saturday, May 13, 2006

Capítulo 18 – A Água

As lágrimas sobre a pele molhada do rosto de história. Enquanto Anna Lívia caminhava para o banheiro para se lavar.
O que dói é o corpo. Este corpo. O que chora, ri, sente, corre da morte para a vida, uma vida sem substância e conteúdo é o corpo, este corpo. O que sente a ausência e o fogo da saudade; a loucura de nunca mais; o ardor de perder a oportunidade de mais algumas palavras ainda não ditas, mas que ficaram pairando numa fração de desejo e sentimento não jogado para fora, tudo isto é do corpo, este corpo de carne e sangue – como diz o padre na missa.
Mas a liberdade e o prazer intenso a cada novo instante; o amor nos raios do sol da sempre manhã que nunca envelhece ou entardece é a alma, livre de todo o condicionamento. Ela flui por diferentes terrenos, corpos e espécies; vidas, tempo e espaços. Ela não sente o que eu sinto neste momento.
Claro! Estou identificado com este meu estado mental e corpóreo temporário. Agora o que tem mais valor? O corpo temporário revestido de história ou a alma absorta na eternidade, conhecimento e bem-aventurança?
Ela sai. Volta ao quarto branco e desarrumado, pela manhã. Vejo nos olhos dela que terei que correr.
Mas não é o momento!
Não dá mais para adiar.
Tenho que fugir deste fogo luxurioso. Mas inda em fração de segundo vi como é complicado entender bem estes dois lados de uma mesma situação: o corpo e a alma, o eterno e o temporário. A vida e a morte. Na realidade há apenas o espiritual que envolve tudo, que tudo penetra e que tudo mantém. Este é o ponto de equilíbrio. A síntese da tese e antítese.

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