Uma vez experimentado, produz no sujeito a vontade incontrolável de senti-lo o tempo todo. O desejo de querer o hotel para si. Apoderar-se do táxi, na viajem. Deve ter sido alguma associação do canto do quarto com o canto da sala, ambos ausentes no hotel. Possivelmente uma mistura de trechos de conversas de adultos, de insinuações verbais, murmúrios mal ouvidos pelo sono, à mesa de qualquer. Talvez sem sono, mas certamente à mesa, impaciente com os chás antes da conta.
Aquele desejo persistiu em mim por muito pouco tempo. Não o de um simples vício, mas o de um perfume delicioso. Uma alucinação, diria ele.
Mas o caso é que este cara saiu correndo e sem querer pagar a corrida. Eu o matarei!
Como o associava à causa errada, custei a perceber que já estava viciado. E que nunca mais conseguiria esquecê-la. ALP. Soletrando as iniciais de sua forma. Mas, (...)
Eu estava naquele lugar brilhante, como sol no rio. Dentro, uma gruta. Com árvores + folhagens + flores = silvestres + o aroma de transcendência. Dentro, do corpo, mas longe dele. No mais profundo e elevado pensamento, refinado, dizem meditação. Todo ruído ao redor de meus ouvidos como abelhas de combustível e metal, com escapamentos barulhentos. E lá deixei ALP. Eu (este mesmo que corre). O passado sem futuro. Apenas vendo a manhã sem término marcado, sem relógio, pressa, por quê. Deixei o hotel e o compartimento do carro corpóreo, quero dizer o táxi e minha mente. E lá somente o lançar-se no pleno sem fim. Em direção a um garotinho de cor azulada com sorriso de flecha. Com corpo de jasmim e som de flauta. Mas, contive. Voltei à gruta, dentro. Assistindo o desfile sublime. O carinha azul com muitas, mas muitas amiguinhas. E belas, floridas, perfumadas, decoradas com preciosidades de amor. Não agüentei e pulei no chão implorando permaneçam! Virei um grão de areia preso na unha do polegar do pé esquerdo do garoto. Aquele mundo como um balanço pra lá pra cá. O vento aromatizado e o frio na barriga de poeira. Pensei é isto que tenho que fazer e me entregar por completo agora a-go-ra a-g-o-r-a a go...
Acha que confiaria no que uma mulher diz? Economize-me! São muitos os nãos, por coragem de tê-lo dito e atrofia da doação, os que com eles selecionam presas e afagam à distância o encarcerado.
Essa auto-citação e reescritura de textos diversos sob a máscara de um mesmo Estefânio Dedaluz leva a crer que ele está apenas se omitindo deste mundo que é na verdade uma ficção. Mas digo que não. Estou envolvido por completo com este mundo. E ele sabe disso? Creio que está descobrindo neste momento. Eu mesmo quem falo! Os dois num canto próximo a ele, vendo sua introspecção por fora. E ninguém conhece o interior, o dentro, a mente e o motorista que conduz o outro lado da visão.
Vou esperá-lo sair deste transe. Espero até o ponto de sua relação com a vida cotidiana. Eu aqui. Vou levá-lo para conhecer estas diferentes comunidades antes do dia raiar. O hotel é grande e pequeno ao mesmo tempo. O tempo do olhar não é o tempo dos olhos, ouvir, cheirar, apalpar. Tempo do passar e do ficar, nem sempre o do projetar, que é o tempo de pensar. Saio da vida para entrar na Arquitetura. Saio da vida para entrar em Araraquara. Saio da vida para entrar num Gordine. Saio da vida para entrar no dia. Saio da vida para entrar numa caixa de comentários. E veremos Russel Crowe numa brilhante interpretação do paracetamol em buscopan.
Saturday, December 17, 2005
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