Acordei no meio da madrugada. Tenho que enviar o capítulo semanal. Internet. Duas e quarenta e dois da madruga.
Quarto infectado de cogumelos. Um bom nome para meu filho. Num táxi. A mente com o taxímetro rodando. Lá fora descubro que Sther se foi. O vento frio me ultrapassa. Estou sem pressa, digo ao motorista. Estou parado. Vendo por qualquer preço o movimento que não é meu. Para onde deseja ir. Este cara está sem destino. Rodo contigo a noite toda. A cidade é grande está morta e é leve como uma pluma, um filme de sessenta e quatro segundos.
As ruas estão cinzentas. Algumas pessoas retornam da rave e as vejo acabadas à minha frente. O ônibus quase se desmancha nos passos deles. Derek chama alto pelo meu nome. Sther. Deixo para lá. Descerei no próximo. Eu também estava lá. Agora numa lata vermelha. Cheiro de sardinha. Sei que ele é vegetariano. Crê em Deus. Diz que Ele tem nome além do apelido, ou substantivo.
Falta de ânimo para pensar em utopias. Isto não é comum para minha alma. Não sei para onde este maluco está me levando. Não consigo evitar. É como se eu estivesse sendo arrastado pelo impulso de escrever. Mas dentro deste quarto infectado só consigo ouvir os sons ecoando tsitátsitátsitá. Não consigo acordar esta mente vazada. Encarar o trabalho na mesa, para tomar banho, telefonar a um amigo para que ele tente acordá-la por mim, ligar a TV nunca, ouvir um novo spectral moog. Tem gente que me odeia. Eu já odiei. Ele não existe. Fiz as pazes com o velho. Eu também poderia ficar velho, mas alma não envelhece. Diz que a vida é tapeação. Eu concordo. Os tolos se auto-tapeiam. Eu cheguei neste ponto.
Quando eu tinha cachorro. Meus cachorros não me olham com ansiedade. Não dou ossos para eles. Também são lacto - vegetarianos. Distribuo baratas e ratos pelos açougues. Eles não sujam os quintais e calçadas dos vizinhos, assim asseguram o meu sossego. Notei que eles não dormem. Vigiam a minha insônia. Tudo isto se passa pela minha mente em poucos segundos como um vídeo de trinta e dois segundos. O necessário para se acabar com uma vida. Por que Sther não desceu aqui? Vai errar o pub. A noite está ácida ainda. Este é o problema. Resultado é se perder num táxi, vagar nas paredes da mente, explodir numa lata de dois andares, então caminho livre sem ruídos dentro de mim, agora. Só o vento nos ouvidos e um estrondoso lançar de carne sangue e alentos pelos ares à minha frente. Sther já não está mais indo.
Nem percebo que já é noite. Não escureceu. Passamos pela ponte. O relógio marca as horas e grita. Estou acordado, eu em minha alma adormeço neste carro cheio de cogumelos e o taxista me conduz sem saber para onde vou por onde vou por que vou. Sei que paramos no sinal. Como um signo de Pierce dentro de outro signo de Eco. Luzes sorriem para minha mente e estou preso dentro dela querendo chorar. Não consigo parar esta cara e dizer o que fazer. Não terei dinheiro para pagar a rota, o giro, o centro. Lá na frente o fogo do ônibus me acorda. Outra vez percebo que eu dormia dentro de minha alma. Vou descer aqui! Quando a porta abrir, salto de dentro da cidade bombardeada.
É meio estranho ver as fisionomias das pessoas. Histórias sonoras em movimento. Meu amor, meu ódio. Este parece um suicida. Bombman. Olha o bigode dele. Como pode? Nem está tanto frio. Ele parece cego, mórbido, visualizando o além. Será que ele está muito louco. Suando frio com um paletó de pele de carneiro. Ele tem dente de sabre. Será que ninguém notou ele abrindo lentamente os botões, os olhos sem piscar, puxando uma corda dessas tipo de amarrar vidas no inferno..., ninguém supunha nada, mas por que estou pensando sobre tudo isto que estou vendo como se estivesse relatando algo no futuro. É muito estranho viver esta vida sem saber que estamos prestes a morrer a qualquer momento como dizia Derek aos seus cães lacto - vegetarianos. Eu me vou. A lata vermelha explodiu.
Sirenes nas ruas, você ensaia dançar uma dança urbana sobre corpos registrados no tempo. Esse nervosismo nunca te abateu. Sua casa fica longe da minha e hoje é domingo. Ela não tinha que descer ali. Será que você entende quando escrevo como se estivesse falando? Bem, agora posso dormir dentro deste veículo por mais algumas vidas. Não dizem que há reencarnação, karma e tal. Verei Sther na próxima. Motorista me leve até acabar o combustível. Acordarei mais umas 20 vezes. Virarei de lado enquanto o mundo gira. Ouvi alguma idiotice do tipo os lados parecem todos errados. Há certo, mas minha mente não conhece. Nem o motorista.
Eu conheço! Por isto você se sente vazio e só. E ainda diz que não quer mais perder os seus vinte anos procurando sair deste táxi. Mas você não está no carro para saber. Sim, estou. Como? Você está trancada no quarto sem chaves para gritas ou se matar. O quarto está aqui dentro deste carro com você, cara. Eu já acordei, falta você acabar com estes desejos estúpidos e jogar este motorista para fora. Tome o volante e volte para casa. Espero você no quarto sem nenhum cogumelo infectado. Apenas o universo todo para conhecer enquanto olha para o céu.
Eu a amava. Ela não sentia com a alma. Com o corpo e sentidos sujos. Ela blindou o carro e todo o mar Egeu. Não queria saber de mais nada e gostava de carne mal passada. Tentou se casar com meu irmão e engoli-lo. Sem sucesso. Cada noite implorava com mais raiva. Implorou até e até construiu uma cidade de desejos egoístas. Nunca quis que eu a visitasse, fui visitá-la. Disparei uma flecha certeira, atravessando seu coração de ferro. Ela nada sentiu. Mas, era bem atenta aos detalhes dos movimentos e fisionomia das pessoas. Coisas de ex-modelo. De nada adiantou. Cozinhou seu próprio coração e não conseguiu descer depois de mim. Os dias derreteram a cera de nossas velas. Guardou um pedaço para uma vida de gozos, o outro para uma vida de fadigas e glória. O resto atirou aos ares. Para livrar-se do cheiro, acelerou o Tempo até romper-se o eixo e não sobrar ninguém para contar a história. Somente eu é que sabia dos detalhes. De tudo que se fizeram estilhaços. Por não ter aceitado meu jeito. Eu disse cara, estamos alienados sem saber! Consideramos-nos libertários, descolados, abusados e por ai vai, mas no fundo estamos completamente alienados. Nossa geração não pára para refletir sobre algo mais profundo ou relevante. É tudo na base do momento. Imediatismo total. Não quero que meu filho seja uma marionete. Somos jovens ainda, temos que fazer pensar. Claro que não falo tipo vamos filosofar. Mas, tente refletir sobre coisas simples que passam sem que possamos perceber ou nos antenar para o fato de como estamos presos. Como meu irmão.
Na rua não é raro você ouvir pessoas falando em inglês, em árabe, alemão, japonês, francês, espanhol, russo, nhegantú e, por incrível que pareça, português. As palavras circulam sem donos ou nações, pelo simples prazer de dançarem sozinhas. Pronto! O trânsito parou e acabou o combustível todo! Tem que me pagar agora, rapaz. Não importa. Quero o dinheiro! Sai entre a multidão de curiosidade sensacionalista. Ele lá gritando pelo dinheiro. O irmão de Derek correndo ao nada. Sem o aprisionamento do carro. Preso agora no quarto. Tentando apanhar os cogumelos como o reflexo de uma mangueira carregada de mangas refletidas numa poça dágua. O irmão de Derek o próprio Estefânio Dedaluz. Procura escapar do cansaço e se esconder do momento anterior, que antecede este. No hotel.
Friday, December 16, 2005
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