Olhei no relógio, apenas por impulso, não vi a hora. O sol já havia se escondido. Alguns ratos corriam no forro da recepção, no mesmo horário, todo dia. "Sem falta eles estão lá em cima fazendo o maior barulho, parece uma festa!", disse um hóspede, cara novo de uns vinte e poucos anos, que estava lá alguns dias. Fui até a janela e fiquei ouvindo o som dos carros cortando a avenida. Estou tentando fugir da ansiedade. Minha fuga causa mais ansiedade ainda. Olhando lá fora, ouvindo o som dos automóveis e estando aqui dentro com os ruídos dos ratos no forro da recepção do hotel, tudo parecia completamente sem sentido. Tantas coisas se passam pelas cabeças, mas parece que ninguém pára pra perceber isto. Chega o recepcionista. Eu estava sozinho para o check-in.
Perguntou "qual seu nome e idade, rapaz?" Fiz um pequeno esforço para me lembrar. Foi ai que me toquei e soltei as duas malas que eu ainda segurava nas mãos. Não estavam tão pesadas. Laptop e roupas. Talvez por isto que nem me liguei nelas.
"Estefânio Dedaluz. Vinte e seis", respondi meio que sem pensar e com a voz cansada.
Lá dentro tocava uma música que mais parecia o som de vinil riscado e se repetindo na mesma linha, cheio de chiados. Mas depois notei que era um som do Orbital. Antes de reconhecer o que era, o som de disco riscado estava me incomodando. Estranho que ninguém se importava. Pensei que pudesse estar incomodando apenas a mim. Então fiquei quieto na minha. Já era noite.
Eu me sentia um pouco entorpecido com o cansaço. Tudo parecia um filme sem enredo. Pessoas entrando e saindo. Caras de dor, desejos, medo e ansiedade. Esta era também a minha cara.
O computador do recepcionista deu problema. Depois que solucionou, mais perguntas.
"Qual o motivo de escolher nosso Hotel? Alguma indicação"
"Quero descansar. E pensar um pouco na minha vida. Simplesmente peguei a estrada e parei aqui"
"Você trabalha profissionalmente como escritor?"
"Mais ou menos. Sou free lance." E olhando para o lado peguei uma cena estranha. Um outro hóspede do Hotel discutindo com o gerente, talvez.
"Gostaria de enfatizar alguns pontos quanto as suas perguntas: qual a necessidade deste questionamento todo?"
"Aqui você não tem que perguntar nada, meu caro amigo. Apenas responda. É assim que funciona! Se você está hospedado conosco terá que dar detalhes de sua vida e intenções. Não estamos a fim de aturar problemas futuros por causa de hóspedes suspeitos."
"Ao que me parece isto é bastante decisivo para que reduza minha estadia...ohhh, hei parconiss!". Antes de o hóspede concluir, dois brucutus tipo jiu-jitsu vedaram a boca dele com uma fita adesiva. O gerente ou dono, sei lá, continuou discursando: "aqui você não tem o direito de expressar seus pensamentos, desejos ou o que quer que seja..."
Ninguém dizia nada. Todos que passavam por perto sentiam o que estava rolando, mas passavam de cabeça baixa. Então, pensei que o primeiro e único problema que havia surgido naquele Hotel fosse este. Como eu vivia fora deste esquema todo achei que eu estivesse desatualizado com as novas normas de etiqueta social, que, diga-se de passagem, sempre odiei. E como não estava sendo comigo... deixei pra lá.
Acho que pelo fato de eu estar muito cansado - sabe quando você não consegue coordenar o que ouve com o que percebe e nada disto está ligado com o fato real - pois é, na minha mente entendi que aquele hospede tivesse vindo para o hotel como um mero turista como alguém que vem para o mundo querendo ser um turista também, o que é normal para quem está pagando, mas que no meio da história descobre que fez um mal negócio. Deu para entender? Ai não dá para cancelar a reserva. Quis, agora consente!
Peguei a chave, terceiro andar, 343, final do corredor.
Pelo corredor estava total silêncio. Apenas a sola do meu tênis e minha respiração um pouco ofegante é que quebravam o mórbido e sombrio silêncio que me fazia lembrar o corredor do Hospital São Paulo, onde fiquei internado quando criança. 343. A chave entrou macia. Havia marcas de sangue na porta, o formato perfeito de uma mão aberta expressando PARE!
Abri a porta procurando na parede o interruptor. Acendeu uma luz amarela de tão fraca que era. Tudo para aumentar o sono ou entorpecer ainda mais a mente de qualquer um. Olhei para todos os lados e só havia uma cama com lençóis brancos amarelados. Mas, não parecia ser o mesmo amarelo da luz. Era de sujeira mesmo. Como eu vim parar aqui? Pensei enquanto olhava a situação do quarto e me lembrava do mau negócio do outro hóspede e me senti como se estivesse na pele dele. Fui tendo uma melhor noção dos complexos meandros da minha biografia como a própria organização interna dos meus pensamentos. Vi que muitos estavam reunidos no hotel, com efeito, alguns pontos luminosos e centrais soltando sons em tom de vozes guturais faziam me dar mais sono.
O leitor poderá encontrar, assim, um roteiro-chave, desde os primeiros escritos surrealistas e neo-barroco às perturbadoras páginas desta minha descrição derradeira e, como resultará, talvez, pós-moderna? O roteiro era um hotel que agora eu já não via mais como um hotel, mas algo como um hospital mesmo. O cheiro, as arrumações, a decoração e o humor negro e baixo astral dos funcionários me levaram a refletir sobre minha estadia num hospital e não num hotel. O que estou fazendo aqui? Não há ninguém por perto e mesmo assim estou me sentindo preso pelas sutis teias da mente. Sinto paredes e correntes limitando minha consciência. Devo estar com sono. Deitei e dormi.
Wednesday, December 14, 2005
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
.jpg)

0 comments:
Post a Comment