Enquanto aguardava qualquer reação através do trinco da porta, um girar da maçaneta ou um arrombamento. Ele, encostado na parede ao lado da porta, deixava escorrer pela tinta clara riscos de suor de suas costas sem camisa.
Depois de alguns cinco minutos nesta tensão Fausto não ouvia mais som algum ecoando no corredor. Bruscamente abre a porta e olha de forma cortante para o lado direito e, do outro lado, no final do corredor em frente ao clarão da vidraça que refletia alguma luz forte viu alguém caminhando em direção à sua porta. Encostou suavemente o trinco e virou a tranca. O som dos passos aumentava enquanto mais se aproximava da porta. Ele parecia estar ouvindo este alguém do outro lado dizendo para si mesmo: 343. É aqui.
Toctoctoc.
Fausto não pensou em nada, apenas agiu como impulsionado por uma corrente elétrica e um choque cerebral.
- Quem é? Perguntou ele.
- Sir Rama. Senhor, por gentileza, gostaria de lhe informar que terá que trocar de quarto ainda hoje, disse a voz do corredor.
- Como assim. Por que terei que trocar de quarto?
- Estamos recebendo mais alguns hóspedes e não há mais nenhum quarto triplo. Teremos que usar este 343. Sinto muito senhor.
- Está bem. Em dez minutos deixo o quarto.
- Sim senhor. Eu volto para conduzi-lo ao outro quarto, senhor.
Ele não quis entender como outras coisas que ele não fazia questão de entender. Coisas banais que ganhavam um ar de estranho quando ocorriam não ao acaso, mas premeditado por algum ser mal intencionado.
Que loucura é esta?! São dez e cinqüenta e quatro da noite e este maluco quer que eu troque de quarto! Pensou alto Fausto. Dirigiu-se para a janela dos fundos de onde vinham vozes que se mesclavam com o som escuro sombrio. Debruçou-se olhando para o que acontecia nas diferentes vidas que vinham a sua vista. Casais curtindo na mesa do bar. Algumas pessoas e grupos de amigos saindo do shopping. Outros jovens bebendo e fumando debaixo de algumas árvores. Ao se distrair um pouco com as cenas Fausto nota com surpresa que havia no para peito, bem no canto, um mini binóculo bushnell. O que faz isto aqui? – exclamou, alguém deve ter se esquecido. Vou curtir vendo de perto tanta demência. E olhando pelas janelas notou algo muito estranho. Mais estranho do que qualquer coisa que já avia visto. Não só estranho como também suspeito. Num bloco a frente, num andar abaixo ele viu um grupo de homens (quatro ou cinco) gesticulando e portando armas. Um, apoiado numa mesa com uma luz focal ao centro segurava um objeto que Fausto consegui identificar como sendo uma granada e uma enorme dinamite de seis gomos. Meio que sem saber se era isto mesmo que estava vendo, ele tirou duas vezes o binóculo dos olhos tentando certificar-se. Mas era isto mesmo. Ele então passou a tentar ouvir pelos gestos da boca o que diziam: amanhã, workshow, cálidas, terrorizar, morde. Até que notou a presença de um tal que chegara fazendo com que todos parassem o que estavam fazendo e se dirigiram a ele como que esperando alguma novidade. Um deles vai até a janela e olha em direção a Fausto e chama outros dois até a janela. Quando Fausto percebe o que havia acontecido já era tarde. Um deles saca o revolver e atira. Os estilhaços do vidros da janela jogou Fausto no chão que deixou o binóculo cair no pátio. Ele estava bem. Sem ferimento. - Agora entendo porque estava tão aflito. Tenho que correr. Lá fora alguns gritos pareciam ter notado os tiros, mas eram apenas gritos de celebração que calaram a dor sonora do disparo.
Agora só há um verdadeiro problema, eles sabem que vi algo a mais do que deveria, concluiu Fausto. Correu para arrumar suas coisas. Jogou tudo dentro de sua mochila e na pequena mala. O laptop já estava no bag. Abre a porta e no corredor avista o homem chegando até ele. Aquela luz forte no final do corredor já estava apagada, o que dificultada poder identificar quem estava se aproximando. Ele então acende a luz defronte sua porta e tentando demonstrar calma fecha com a chave.
- Não precisa trancá-la, caro senhor. Disse o homem olhando para dentro dos olhos de Fausto enquanto levava a mão à cintura.
Era a mesma voz. Sir Rama. Mas na luz Sir Rama era o mesmo que havia entrando na sala onde estavam os atiradores. E tarde ou não, Fausto havia entendido o que estava acontecendo. Nem só de monotonia vive-se a vida. Todo o jogo estava montado. Fausto era agora a peça principal que deveria ser liquidada.